
Eu, no centro, com meus irmãos e primos, na porta de casa.
Quando meu pai ia ao centro de São Paulo, ele dizia “vou à cidade”. Nossa casa, portanto, não era na cidade. Era fora, era longe: num bairro cheio de terrenos baldios e de casas em construção, frequentado por carroças puxadas a cavalo que vinham buscar jornal velho e por procissões que saíam da igrejinha e terminavam na quermesse. Era quase uma cidade do interior, que tinha seu louco e seu ladrão, que todos conheciam pelo nome. Crianças e cachorros ficavam soltos na rua e boa parte das portas passava o dia aberta – no entardecer, a garotada e a cachorrada entravam e as mães trancavam as fechaduras. Morávamos em frente de uma praça grande, de mato sempre alto, alto o suficiente para que o esconde-esconde das dezenas de crianças do bairro fossem épicos e quase intermináveis.
Para nosso orgulho, a casa da minha infância era moderna – uma escultura setentista de formas geométricas, erguida num dos muitos terrenos a poucos quarteirões de um centrinho pobre e interiorano. Mudamos para lá em 1976, quando eu tinha 3 anos. Não lembro bem quando foi que aconteceu, se nos idos da década perdida dos 80 ou já às portas dos 90, mas um dia, em vez de meu pai ir à cidade, foi a cidade que chegou à minha casa. Recolheram-se as crianças, prenderam-se os cachorros, muros e grades se ergueram para separar nossas casas das ruas, que de uma hora para a outra viraram veias e artérias do complexo organismo viário de São Paulo. Naquela época, até assassinato aconteceu na praça.
Hoje, tantos anos depois, o bairro não é mais fora, não é mais longe. A Vila Beatriz, onde fica a casa da minha infância, na realidade é considerada um bairro bastante central, muitíssimo bem localizado, uma das áreas mais valorizadas do pujante mercado imobiliário paulistano. O horizonte está cheio de prédios modernos, esculturas geométricas do século 21. Agora me dou conta que nossa família, a primeira a habitar aquela casa moderna, era a vanguarda de uma transformação profunda. Fomos nós, a módicas prestações que duraram 15 anos, que começamos a transformar a pacata Vila Beatriz em bairro nobre da megalópole.
Esta noite eu dormi lá, na casa da minha infância. É que eu e minha esposa Joana estamos reformando nosso apartamento para prepará-lo para receber Aurora, nossa filhinha que nasce em junho. Meus pais, que moram lá até hoje, estão nos hospedando.

As formas modernas da nossa casa, que nos enchiam de orgulho.
A casa está mudada. As formas geométricas hoje estão escondidas por grandes árvores e intrincadas trepadeiras. As paredes brancas e nuas da minha infância, com cara de moderno, hoje estão cobertas de tintas de tom pastel e de objetos antigos recolhidos em viagens. Se antes nos orgulhávamos da modernidade da arquitetura, agora ela está escondida por trás de uma camada de antiguidade.
“Hoje de manhã, quando saí de casa, vi a pracinha bem cuidada e cheia de gente. É que, depois de anos de abandono do espaço público, com cada um erguendo o seu muro, o bairro parece que voltou a se abrir para fora. Quase 40 anos depois que meus pais, recém-casados, chegaram lá, uma nova geração de jovens casais tomou o bairro, com seus bebês. Na minha pracinha e em outras do bairro, como a Praça das Corujas, eles se juntaram para aparar a grama, construíram um playground de madeira e plantaram árvores frutíferas. As crianças e os cachorros estão voltando para as ruas (elas quase sempre com os pais, eles quase sempre na coleira).
Quando a cidade moderna chegou à minha casa, anos atrás, ela varreu para fora do bairro a humanidade das ruas. Agora, em 2013, uma nova geração ousa acreditar que a cidade também pode ser humana. Será que Aurora vai brincar de esconde-esconde naquela pracinha?

Hoje, torço para que Aurora também possa correr na pracinha onde brinquei na infância ou nas praças dos arredores.

O jornalista Denis Russo Burgierman dirige as revistas Superinteressante e Vida Simples, da Editora Abril. Em 2008, partiu para os Estados Unidos, onde participou por um ano do Knight Fellowship, um disputado programa para jornalistas da Universidade de Stanford. Ele ajudou a fundar a WebCitizen, empresa que estimula o engajamento de cidadãos entre si e os seus governos por meio da internet.












































