Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua…
Uma tarde, quando garoto, a minha tia querida levou a filha e os dois sobrinhos, meu irmão e eu, para tomar um sorvete e estreiar o carro novo que tinha acabado de comprar da marca e da cor que eu pedi.
O carro era um topolino azul marinho, com estofados em cru. Meu irmão e a minha prima Vivi no banco traseiro, eu, na frente. Nada de cinto, nada de air-bag. Estes dois atrás de mim eram muito levados. E o meu irmão adorava bater no respaldo do meu banco. Eu, muito bravo, me escondi entre o banco e o painel. No chão do topolino…!
Então, não é que o mundo fosse grande. Eu era pequeno!
Eu não tive uma casa na minha infância. Tive três! E tem uma especial, claro. A casa da minha avó que aos meus olhos era enorme!
O meu avô, o meu pai e eu fomos criados nela. Uma casa vinda da Inglaterra, tijolo por tijolo, trazida de navio pelos meus bisavôs no início do século passado. Era linda e tinha um jardim imenso porque a casa vizinha, da minha tia, tinha o jardim anexado. Um parque. Ou pelo menos, um parque para mim, a cachorra e os gatos da minha avó.
A semana toda a passava com os meus pais, na minha casa “oficial”. Com livros, aulas de violão, com o meu irmão ao piano, a professora de inglês, as aulas de natação… mas todo final de semana os brinquedos me aguardavam no mundo infinito da casa da mãe do meu pai. E os doces. E as delícias. E a minha tia, que morava ao lado e tinha comprado carro que eu pedi para comprar!
As ruas me pertenciam. San Isidro era meu. San Isidro e Florida (o bairro e não a rua). As minhas casas ficavam nestes pontos próximos da cidade de Buenos Aires, menos de 20 km. Era só pegar o trem. Ou esperar que os adultos nos levassem ao centro.
Todos sabem que o clima do planeta mudou. E a minha infância se passou jogando scrabble com a minha avó nas frias tardes de inverno, ou sentado ouvindo-a ao piano, ou brincando de esconde-esconde no escuro, por todas as salas da casa. A cozinha era o limite para um lado, a entrada principal para o outro.
Incrível ter tantas lembranças de tudo. Faz tanto tempo… Um dia a minha avó apareceu com um telefone branco, com o disco cromado… brilhante! Ou sempre, o meu avô tocando religiosamente gravações da Callas com o Tullio Serafin regendo. Ou o LP recem adquirido em Londres, da peça My fair lady, com a voz da Julie Andrews repetindo que chovia na planície espanhola… Ou o dia em que o gravador de fita Geloso fez a primeira gravação da brincadeira boba dos meninos tolos… Que saudades!
Pena que quando a adolescência chegou parti um pouco do casulo em busca de novas experiências. E embora a casa ficou com a família por muitos mais anos, eu fui buscando novos horizontes e passei de residente a visitante.
Hoje, a visito sempre que o meu inconsciente busca um cenário familiar para os meus sonhos.
E não vale pensar em saudade de uma coisa só. Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua, das balas de chocolate com laranja que a minha avó pensava que guardava em lugar seguro, dos contos antes de dormir, dos lençóis de cor azul celeste, da minha amexeira, que dava frutas escuras e doces, todo verão… Nunca haverá ameixa tão doce.

Só não lembro de ter sido muito arteiro, não como a minha avó contava do meu pai que, aos dez anos de idade, realizou uma façanha que o meu irmão repetiu, sem saber do precedente, perante os meus olhos espantados. Os dois pularam da sacada do quarto dela, no primeiro andar, usando um guardachuva de paraquedas. E os dois sobreviveram para nutrir com esta anedota as risadas da família.
Impossível eu não chegar neste ponto do texto com lágrimas caindo pelo meu rosto, que envolve agora o meu olhar distante. Obrigado por me ceder este espaço para despertar lembranças tão gratas.
O arquiteto Roberto Negrete nasceu na Argentina, mas mora no Brasil desde a década de 1980.
























