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Roberto Negrete e as saudades de tudo

Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua…

Uma tarde, quando garoto, a minha tia querida levou a filha e os dois sobrinhos, meu irmão e eu, para tomar um sorvete e estreiar o carro novo que tinha acabado de comprar da marca e da cor que eu pedi.
O carro era um topolino azul marinho, com estofados em cru. Meu irmão e a minha prima Vivi no banco traseiro, eu, na frente. Nada de cinto, nada de air-bag. Estes dois atrás de mim eram muito levados. E o meu irmão adorava bater no respaldo do meu banco. Eu, muito bravo, me escondi entre o banco e o painel. No chão do topolino…!
Então, não é que o mundo fosse grande. Eu era pequeno!

Eu não tive uma casa na minha infância. Tive três! E tem uma especial, claro. A casa da minha avó que aos meus olhos era enorme!
O meu avô, o meu pai e eu fomos criados nela. Uma casa vinda da Inglaterra, tijolo por tijolo, trazida de navio pelos meus bisavôs no início do século passado. Era linda e tinha um jardim imenso porque a casa vizinha, da minha tia, tinha o jardim anexado. Um parque. Ou pelo menos, um parque para mim, a cachorra e os gatos da minha avó.

 

A semana toda a passava com os meus pais, na minha casa “oficial”. Com livros, aulas de violão, com o meu irmão ao piano, a professora de inglês, as aulas de natação… mas todo final de semana os brinquedos me aguardavam no mundo infinito da casa da mãe do meu pai. E os doces. E as delícias. E a minha tia, que morava ao lado e tinha comprado carro que eu pedi para comprar!
As ruas me pertenciam. San Isidro era meu. San Isidro e Florida (o bairro e não a rua). As minhas casas ficavam nestes pontos próximos da cidade de Buenos Aires, menos de 20 km. Era só pegar o trem. Ou esperar que os adultos nos levassem ao centro.

Todos sabem que o clima do planeta mudou. E a minha infância se passou jogando scrabble com a minha avó nas frias tardes de inverno, ou sentado ouvindo-a ao piano, ou brincando de esconde-esconde no escuro, por todas as salas da casa. A cozinha era o limite para um lado, a entrada principal para o outro.

Incrível ter tantas lembranças de tudo. Faz tanto tempo… Um dia a minha avó apareceu com um telefone branco, com o disco cromado… brilhante! Ou sempre, o meu avô tocando religiosamente gravações da Callas com o Tullio Serafin regendo. Ou o LP recem adquirido em Londres, da peça My fair lady, com a voz da Julie Andrews repetindo que chovia na planície espanhola… Ou o dia em que o gravador de fita Geloso fez a primeira gravação da brincadeira boba dos meninos tolos… Que saudades!

 

Pena que quando a adolescência chegou parti um pouco do casulo em busca de novas experiências. E embora a casa ficou com a família por muitos mais anos, eu fui buscando novos horizontes e passei de residente a visitante.
Hoje, a visito sempre que o meu inconsciente busca um cenário familiar para os meus sonhos.
E não vale pensar em saudade de uma coisa só. Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua, das balas de chocolate com laranja que a minha avó pensava que guardava em lugar seguro, dos contos antes de dormir, dos lençóis de cor azul celeste, da minha amexeira, que dava frutas escuras e doces, todo verão… Nunca haverá ameixa tão doce.

 



Só não lembro de ter sido muito arteiro, não como a minha avó contava do meu pai que, aos dez anos de idade, realizou uma façanha que o meu irmão repetiu, sem saber do precedente, perante os meus olhos espantados. Os dois pularam da sacada do quarto dela, no primeiro andar, usando um guardachuva de paraquedas. E os dois sobreviveram para nutrir com esta anedota as risadas da família.

Impossível eu não chegar neste ponto do texto com lágrimas caindo pelo meu rosto, que envolve agora o meu olhar distante. Obrigado por me ceder este espaço para despertar lembranças tão gratas.

O arquiteto Roberto Negrete nasceu na Argentina, mas mora no Brasil desde a década de 1980.

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A infância em uma escola de música

A casa em que passei muitos e maravilhosos dias da minha infância não foi exatamente a minha, mas a da minha avó Margarida, em Avaré-SP, cidade em que aliás eu nasci (mas nunca vivi). Minha família é gigantesca e tive o privilégio de crescer com muitos primos para brincar. Nas ferias, todos nós passávamos uma longa temporada na casa da vovó, que respirava música, já que ela foi cantora nos anos 50.

Bruna e Lucas em 1990, inventando personagens.

Vovó fez questão de que todos nós aprendessemos a cantar e a tocar ao menos piano. Durante um período da minha infância, o andar de cima da casa dela foi uma escola de música, com várias salas e um piano em cada uma delas. Eu e meus primos brincávamos ali, quando a escola fechava, de tocar, compor, dançar, fazer arte. Isso me marcou demais. Por ser uma casa antiga, tinha também muito a ser explorado para um bando de crianças: o quintal, o porão, a sala, a escada, a lavanderia, até no telhado a gente subia! Felizmente a casa sobrevive até hoje e minhas lembranças também.

Bruna Caram é cantora, formada em Educação Musical pela Unesp. Aos nove anos fez parte do Trovadores Urbanos e aos 19 lançou seu primeiro CD. Ela é dona de uma voz inconfundível e de uma presença de palco marcante.

 

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Era fácil ser feliz na casa da minha avó

A casa que sinto como minha, na infância, não era onde eu morava. Era cinco minutos a pé, residência da minha avó. Coisa de subúrbio, com goiabeiras e quintais, no meio do Grajaú (RJ), cercada de uma quantidade incrível de árvores de tamarindo.
Minhas memórias dali são doces, de jogar bola na rua, tal a ausência de carros.

Os objetos se encontravam comigo, que acordava mais cedo que o resto da família. Éramos íntimos. A geladeira branca funcionava como mãe zelosa me dando água gelada a cada 50 minutos de correria suada.
Fiquei lá até 9 anos de idade.
No fim da tarde, vovô (de cabelos brancos, que hoje tento imitar) tocava piano. Percebendo meu ávido interesse pela música, ele dizia: “Menino, vá ouvir uma cantora que acabou de surgir. É uma tal de Elis”. Faço isso até hoje.
Meu sentimento pelo lugar e pela época é de como era fácil ser feliz. Na minha idade a alegria é possível, mas exige um certo esforço.

Oswaldo Montenegro é músico brasileiro. Além de cantor, compõe trilhas sonoras para peças teatrais, balés, cinema e televisão.

 

Um sítio para o menino Guto Requena

Minha casa de infância não era uma, mas várias. Meus pais adoravam mudar de casa, fazer reformas e mudar novamente. Acredito que de muitas maneiras isso influenciou meu olhar para os espaços. No entanto, da minha infância até os15 anos eu tive sim uma espécie de casa simbólica, que foi o nosso sítio, numa vilinha muito pequena chamada Araçoiabinha da Serra, há 40 minutos de Sorocaba, minha cidade natal no interior de São Paulo. Praticamente todos os feriados, finais de semana, férias e comemorações se passaram lá com a minha família. Nosso sítio é a minha grande identidade de casa de infância. É sobre ela que eu vou falar.

A casa devia ter uns 100 metros quadrados mas minhas memórias mais intensas vêm mesmo do seu exterior.  Nosso sítio tinha uma grande horta, muitas árvores, um pomar com muitos tipos diferentes de frutas e até um rio que atravessava o terreno, onde eu adorava pescar e me banhar. Além disso meus pais sempre foram apaixonados por animais, então tínhamos muitos cachorros, cavalos, tartarugas, pássaros, vacas e até arara e tucano. Eu andava sempre à cavalo, tirava leite de vaca todas as manhãs e brincava muito naquele ambiente tão estimulante. A casa era uma típica casa de sítio, com portas e janelas de madeira, lareira, fogão à lenha e até um alambique de cachaça na cozinha. Foi uma grande experiência crescer neste ambiente bucólico, recebendo tantos estímulos. Até meus 15 anos, consumir produtos orgânicos era totalmente normal já que frutas, verduras, legumes, queijos e até a carne vinha do nosso sítio.

Relatar um pouco da minha casa de infância para vocês, me fez sentir uma grande nostalgia e perceber que a ideia de sustentabilidade e respeito à natureza, que espero sempre abordar no meu trabalho como arquiteto, é totalmente influenciada por esse período da minha vida.

Quem é Guto Requena:

 

Guto Requena é arquiteto e especialista em design contemporâneo e cibercultura. Em todos os seus projetos, ele tem a preocupação de resgatar a memória e a sustentabilidade. Mais sobre o trabalho dele aqui.


 

 

A casa da infância do Raí

Será que uma casa sabe o destino de seus moradores? Será que chora quando os meninos crescem? Será que a casa do moleque Raí se confundiu ao ver, dentro da TV, o jogador moço riscando o ar com a bola? Pois ele nem era famoso quando saiu, aos 17 anos. Raí foi embora quando se casou – mudar daquela casa significou virar gente grande. A infância simples ficava ali, no imóvel construído muitos anos antes pelo pai Raimundo e pela mãe Guiomar.

Foto: Revista Brasileiros – agosto 2010. Raí é o menor dos filhos de Dona Guiomar (que ficou escondida pelos filhos na foto).

Eram quatro quartos feitos para acomodar um tanto de criança – seis filhos de diferentes idades e mais um ou dois parentes que o pai ajudava. Algazarra garantida, pé no chão, cheiro de terra molhada no calor de Ribeirão Preto. O bairro era Sumaré e a vida tão comum e tão boa quanto a de qualquer pessoa que tem um quintal rodeando o terraço, com canto de sobra para abandonar brinquedo quebrado, para criar bicho, para encontrar insetos. No almoço ou no jantar a mesa sempre estava cheia – vantagem de se ter uma família grande. Eram longas as conversas e variados os assuntos. O pai amava os filósofos gregos e passava horas na biblioteca. Raí não era o mais assíduo frequentador no mundo dos livros e, hoje, até se arrepende do tanto que não leu e poderia ter lido. Mas a biblioteca mora ainda em suas lembranças com o sagrado volume das prateleiras e os olhos do pai a percorrer as linhas. Havia, ainda, o piano. E um piano é quase um altar em qualquer casa. Haja ou não alguém que o toque.

“Quando me lembro daquela casa, sinto a agradável sensação de aconchego, segurança e harmonia”, escreveu Raí. E ele nem se refere ao aconchego de macios sofás, segurança de fechaduras com leitura biométrica, harmonia de feng shui… Ele só confirma que as casas da infância são, sim, como mães para os meninos, cólo, ninho para os filhotes. E, se choram mesmo quando eles crescem e vão embora, também sentem orgulho. E casa a do menino Raí talvez olhe orgulhosa para as outras da rua e diga “Sim, é verdade, ele morou aqui”.

 

Você também se lembra com carinho da casa da sua infância? Entre em contato com a gente! Nós vamos contar a sua história: acasaevoce@abril.com.br