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“Vou à cidade”, dizia o pai de Denis Russo Burgierman antes de ir ao centro

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Eu, no centro, com meus irmãos e primos, na porta de casa.

Quando meu pai ia ao centro de São Paulo, ele dizia “vou à cidade”. Nossa casa, portanto, não era na cidade. Era fora, era longe: num bairro cheio de terrenos baldios e de casas em construção, frequentado por carroças puxadas a cavalo que vinham buscar jornal velho e por procissões que saíam da igrejinha e terminavam na quermesse. Era quase uma cidade do interior, que tinha seu louco e seu ladrão, que todos conheciam pelo nome. Crianças e cachorros ficavam soltos na rua e boa parte das portas passava o dia aberta – no entardecer, a garotada e a cachorrada entravam e as mães trancavam as fechaduras. Morávamos em frente de uma praça grande, de mato sempre alto, alto o suficiente para que o esconde-esconde das dezenas de crianças do bairro fossem épicos e quase intermináveis.

Para nosso orgulho, a casa da minha infância era moderna – uma escultura setentista de formas geométricas, erguida num dos muitos terrenos a poucos quarteirões de um centrinho pobre e interiorano. Mudamos para lá em 1976, quando eu tinha 3 anos. Não lembro bem quando foi que aconteceu, se nos idos da década perdida dos 80 ou já às portas dos 90, mas um dia, em vez de meu pai ir à cidade, foi a cidade que chegou à minha casa. Recolheram-se as crianças, prenderam-se os cachorros, muros e grades se ergueram para separar nossas casas das ruas, que de uma hora para a outra viraram veias e artérias do complexo organismo viário de São Paulo. Naquela época, até assassinato aconteceu na praça.

Hoje, tantos anos depois, o bairro não é mais fora, não é mais longe. A Vila Beatriz, onde fica a casa da minha infância, na realidade é considerada um bairro bastante central, muitíssimo bem localizado, uma das áreas mais valorizadas do pujante mercado imobiliário paulistano. O horizonte está cheio de prédios modernos, esculturas geométricas do século 21. Agora me dou conta que nossa família, a primeira a habitar aquela casa moderna, era a vanguarda de uma transformação profunda. Fomos nós, a módicas prestações que duraram 15 anos, que começamos a transformar a pacata Vila Beatriz em bairro nobre da megalópole.

Esta noite eu dormi lá, na casa da minha infância. É que eu e minha esposa Joana estamos reformando nosso apartamento para prepará-lo para receber Aurora, nossa filhinha que nasce em junho. Meus pais, que moram lá até hoje, estão nos hospedando.

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As formas modernas da nossa casa, que nos enchiam de orgulho.

A casa está mudada. As formas geométricas hoje estão escondidas por grandes árvores e intrincadas trepadeiras. As paredes brancas e nuas da minha infância, com cara de moderno, hoje estão cobertas de tintas de tom pastel e de objetos antigos recolhidos em viagens. Se antes nos orgulhávamos da modernidade da arquitetura, agora ela está escondida por trás de uma camada de antiguidade.

“Hoje de manhã, quando saí de casa, vi a pracinha bem cuidada e cheia de gente. É que, depois de anos de abandono do espaço público, com cada um erguendo o seu muro, o bairro parece que voltou a se abrir para fora. Quase 40 anos depois que meus pais, recém-casados, chegaram lá, uma nova geração de jovens casais tomou o bairro, com seus bebês. Na minha pracinha e em outras do bairro, como a Praça das Corujas, eles se juntaram para aparar a grama, construíram um playground de madeira e plantaram árvores frutíferas. As crianças e os cachorros estão voltando para as ruas (elas quase sempre com os pais, eles quase sempre na coleira).

Quando a cidade moderna chegou à minha casa, anos atrás, ela varreu para fora do bairro a humanidade das ruas. Agora, em 2013, uma nova geração ousa acreditar que a cidade também pode ser humana. Será que Aurora vai brincar de esconde-esconde naquela pracinha?

 

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Hoje, torço para que Aurora também possa correr na pracinha onde brinquei na infância ou nas praças dos arredores. 

 

 

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O jornalista Denis Russo Burgierman dirige as revistas Superinteressante e Vida Simples, da Editora Abril. Em 2008, partiu para os Estados Unidos, onde participou por um ano do Knight Fellowship, um disputado programa para jornalistas da Universidade de Stanford. Ele ajudou a fundar a WebCitizen, empresa que estimula o engajamento de cidadãos entre si e os seus governos por meio da internet.

 

“Minha infância foi fantástica e excêntrica”, conta Brunete Fracarolli

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Minha infância foi fantástica e excêntrica!!

Sempre fui muito mimada pela minha tia Sylvia, que fazia todas as minhas vontades: pintava meu gatinho de azul, me deixava brincar em cima do armário (pois o quarto dela não tinha muito espaço, aqui em São Paulo) e confeccionava bolos coloridos.

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Quando íamos para o sítio dos meus avôs, aí é que eu me divertia a valer, pois brincava com os pintinhos, com os peixinhos, com os cachorrinhos, com os coelhinhos… Tudo dentro do orquidário da minha Nonna! Adoro os animaizinhos ate hoje! E eu amava os brincos de princesa!!

Na Páscoa, escondiam os ovinhos coloridos na horta e eu corria por todo o sítio, com um cesto de palha, para encontrá-los! Depois disputávamos batendo com os ovos uns nos outros e quem tivesse seu ovo quebrado perdia o seu! Os ovos eram decorados com anilina comestível! Haja galinha para botá-los! KKKK Sempre fui criativa e escolhia as cores com a maior facilidade!

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A rua onde meus pais moravam era pequena e facilitava que pudéssemos andar de bicicleta. Minha melhor amiga era minha vizinha! Um dia ela se mudou com os pais para Brasília e eu quase morri, de tanto chorar minha perda! Depois de muitos anos ela voltou a morar em SP. Somos amigas ate hoje!

Sempre estudei no Dante Alighieri e tenho amigas que estudaram comigo ate hoje!! ADDDOROOO

 

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Renomada arquiteta paulistana, Brunete Fracarolli tem seus trabalhos espalhados por cidades como Milão, Punta Del Este, Nova York, Nova Orleans e Miami. Ela mostra sua movimentada vida social no blog da Brunnete do Casa.com.br. Lá, também compartilha fotos inspiradoras e mostra os amigos de sua maltês, Sissi.

 

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Nossa casa, por Angelo e Eugênio Bucci

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“A cidade da nossa infância começava na nossa casa. Os primeiros habitantes eram nossos pais e irmãos”. Na foto, os irmãos Gustavo e Angelo Bucci.

1.

(Olhando a cidade do alto, do avião, do tempo em que nos dizemos adultos.)

Dona Mary Garcia Leal Bucci dormiu a vida toda no quarto em que nasceu. Morreu aos 73 anos de idade, em 27 de abril de 2007, num hospital em São Paulo, de onde voltou de carro para a sua terra natal. Foi enterrada no cemitério de Orlândia-SP, num túmulo que fica a mais ou menos cinquenta metros da sepultura de sua mãe, a nossa Vovó Lili.

Em Orlândia, os laços familiares e as vizinhanças se estendem naturalmente da vida para a morte. Muitos dos que eram vizinhos na Avenida 2, onde fica até hoje a casa de nossa mãe, são agora vizinhos de jazigo. O traçado de linhas perpendiculares que distribui as avenidas (sentido norte—sul) e as ruas (sentido leste—oeste) no mapa um tanto novaiorquino da nossa cidade se reproduz na cartografia do cemitério. O zoneamento dos vivos se assemelha ao dos mortos. O tempo passa devagar. A distância entre quem vive e quem já não vive é de poucas quadras.

Não que o progresso não exista por ali; ele existe, para o bem e para o mal, mas é lento como um cortejo fúnebre, como a biografia das pessoas que (quase) nunca saem do lugar.

2.

(Agora, olhando a cidade como nós a descobrimos, ainda crianças.)

 

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Eugênio anda de bicicleta no pavimento irregular de Orlândia. “O calçamento dos logradouros em paralelepípedo foi recoberto pelo o asfalto que cobriu tudo nos anos 60″.  

 

A cidade da nossa infância começava na nossa casa. Os primeiros habitantes eram nossos pais e irmãos. Duas portas ligavam a casa com o resto do mundo: a porta do quintal e o portão da rua. O quintal não cabia na casa: piso de tijolo, chão de terra, muro torto, jabuticabeiras, laranjeira e limoeiro; mangueira d’água, passarinhos, cachorro, galinha e formigueiro. O quintal se estendia feito uma floresta, tanto que nossa mãe não hesitava em chamá-lo de pomar. O quintal subia conosco quando a gente trepava nas árvores. Estranho, mas o telhado que cobre a casa era parte do quintal, um quintal alto e sem árvores, perfeito pra soltar pipas e olhar o céu. A casa eram os adultos – o quintal eram os meninos. A casa dentro – o quintal, fora. A casa era dia, o quintal, noite, embora a gente passasse as noites em casa e os dias no quintal. A casa era regra, o quintal, não.

A portão da rua marcava o início do mundo exterior, bem ali na Avenida 2, número 553. A rua também era regrada: começava com números.

3.

(Tentando refletir, entender.)

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“Na nossa memória, Orlândia era um mosaico de 200, 250 quarteirões, cercados de fazendas por todos os lados”.

Regras, ordem. Para entender a conformação da nossa casa, é preciso ter antes em mente a cidade que a emoldurava e ainda hoje lá está, a emoldurá-la. Orlândia era uma cidade quadriculada em quarteirões de oitenta metros por cem, com suas avenidas e ruas, todas elas de mão dupla. O calçamento dos logradouros em paralelepípedo foi recoberto pelo o asfalto que cobriu tudo nos anos 60.

Naquela época, de qualquer ponto em que estivessem, os orlandinos avistavam as cercas de arame farpado que separavam a zona urbana da zona rural. Na nossa memória, Orlândia era um mosaico de 200, 250 quarteirões, cercados de fazendas por todos os lados. Caminhávamos por qualquer calçada e logo alcançávamos o fim: uma cerca, um córrego, um pasto, a linha do trem, a estrada ou simplesmente o mato.

Na nossa infância, fora de casa, todas as esquinas eram ângulos retos. Nada era oblíquo, transversal ou inclinado. Os caminhos da humanidade eram perfeitos e retilíneos.

4.

(Interiores no interior.)

Éramos quatro irmãos, além do pai e da mãe, para um banheiro só. A porta do banheiro dava para a copa, onde tomávamos o café da manhã, almoçávamos, jantávamos todos os dias e, às vezes, fazíamos a lição de casa. A fila para o banho ladeava a mesa de refeições. Também na copa foi instalada a primeira televisão da nossa infância. Telefunken.

A copa – tendo a cozinha por adjacência e adjunção – e o banheiro eram o centro da nossa vida, com seu chão frio, de ladrilhos em vermelho e preto. A sala de visitas, com janelas altas voltadas para a avenida dois, para o nascente, passava semanas inteiras sem visitas. Espaçosa, com sofá, poltronas e espelho em cima da pedra mármore, tinha um assoalho lustroso de taboas corridas, que rangiam num tom grave sob os passantes. Embaixo, um porão raso que foi soterrado quando, numa reforma, as velhas taboas foram substituídas pelo taco com sinteco.

Os quartos, circundando o núcleo copa-banheiro, completavam a rotina doméstica. Em toda parte o pé direito ia alto. Não fazia calor dentro de casa. Para limpar o forro, era necessário um vasculho de quatro metros.

5.

(Tempo.)

A cidade da nossa infância terminava logo, e a infância seguia além dela, como se nenhuma terra tivesse dono ou fazendeiro. Então começava uma espécie de quintal grande: canavial, mangueiras no meio da pasto, mato, cachoeira, caminhadas; enxame de abelhas, picada de cobra, açude, estilingue e rolinha, visgo e coleirinha, rio, jirau e lambaris. Linha de trem velha, linha nova, pontilhão, bicicleta e rodovia, então mesmo sem automóvel se chegava a Sales, Nuporanga, Batatais, São Joaquim e Morro Agudo.

Naquele tempo, São Paulo era outro mundo.

 

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Eugênio (esquerda) e Angelo Bucci (direita), hoje moram em São Paulo.

Angelo Bucci, arquiteto, e Eugênio Bucci, jornalista, são professores da USP e irmãos.

“Eu não me lembro de ter sido tão feliz quanto fui naquela casa”

Morro de saudades da casa em que cresci! Era mágica: dois andares divididos em dois quartos grandes no andar de cima, e um menor onde dormia minha irmã mais velha. O hall de distribuição dos aposentos servia de sala de estar com uma imensa TV presidindo o espaço. Era o local de encontro da família – e quem quer que saísse de um dos 3 quartos topava com a gente ali na bagunça e aderia, nem que apenas por uns poucos minutos.

Lá morávamos os quatro filhos, papai, mamãe, babá e uma trupe de 3 empregadas e motorista – havia também uma edícula no quintal.

Não era uma casa grande, mas cada canto era bem aproveitado. Ligando meu quarto ao de minha irmã, por exemplo, havia uma passagem de pouco mais de 3 metros de cumprimento. Ali, mamãe pendurou um quadro negro gigante equipado com caixas de giz colorido. Era um de meus refúgios: acordava e desenhava cenas na lousa, protegida pela penumbra do corredor. Extravasava minhas fantasias em sequências coloridas, com frases que acrescentava ao longo do dia.

Se mamãe via aquilo e interpreta, eu não sei. Mas tinha o bom senso de me deixar imaginar que meus sonhos estavam a salvo e protegidos ali. Quando minha irmã caçula nasceu, meu irmão Andrea foi dormir na rouparia – o quarto cômodo do andar de cima – que virou em um prolongamento de área de diversão. Lá vivi uma de minhas maiores aventuras infantis: uma vez, emocionada por meu irmão dois anos mais velho topar brincar de casinha comigo, enchi uma panelinha de lata com comidinha. E para dar veracidade a cena, colocamos álcool para fingir que era a água da sopa.

Andrea riscou um fósforo e acendeu a panela sobre o fogãozinho de metal que prontamente se transformou em uma labareda de proporções assustadoras. Um  anjo da guarda apagou o incêndio enquanto gritávamos e abanávamos as chamas aumentando o estrago. Sei que foi coisa de anjo porque nem nós e nenhum fio da pilha de roupas que estava ali ao lado foi atingido. Mas o anjo, tenho certeza, está com as asinhas chamuscadas até hoje.

Voltando a casa: o jardim não era grande coisa, por isso papai comprou um terreno vizinho onde acomodou balanço, uma casa de bonecas pra ninguém botar defeito e seu pequeno zoológico particular.

Que farra! De bicicleta, dava infinitas voltas pelo chão revestido em pedra rosada que, para mim, parecia a rua da canção de roda: brilhava qual uma estrada encantada enquanto a correia da bicicleta ciciava uma canção hipnotizante a cada pedalada. Os bichinhos eram um capitulo a parte: havia chinchilas, cachorros, tartarugas (que um dia pintamos de prateado com jatos de tinta spray), papagaios, cacatuas e até mesmo um filhote de jacaré que, quando cresceu tivemos que entregar ao zoológico de São Paulo.

No andar térreo um imenso hall de mármore azulado distribuía os ambientes essenciais e lá, convidados eram recebidos em coquetéis ou em visitas particulares no Hall. Pelo espaço ser “clean” com piso brilhante e claro, parecia muito maior e mais majestoso do que realmente era.

Talvez enxergue através do véu da fantasia, mas essa casa era linda e nela eu era feliz como não me lembro ter sido depois.  Ela continua lá, o terreno vizinho abriga outra casa. As duas, vistas da rua hoje, parecem menores ainda.

Eu cresci. Papai e Mamãe, ainda bem, amadureceram comigo. E isso não tem preço.

Claudia Matarazzo é jornalista com 14 livros publicados sobre comportamento e moda. Ministra palestras e treinamentos de etiqueta empresarial em todo o Brasil, nos quais também divulga noções essenciais de acessibilidade e inclusão de pessoas.

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A minha casa era viva!

 

Dos 5 aos 20 anos morei com minha família em um sobrado no bairro da Aclimação. A rua era absolutamente residencial, mais parecida com uma cidade do interior. Quando mudamos éramos em cinco. Meus pais , um irmão mais velho, uma irmã mais nova e eu.

A casa era simples e aconchegante, com 3 quartos, uma árvore de flor de jasmin no jardim e um quintal comprido. A sala tinha uma janela art-decô com vidros cor de rosa e transparentes. A cozinha enorme era palco de almoços imperdíveis , que variavam entre a comida árabe e a italiana, o perfume atravessava as paredes e sempre havia lugar na mesa para convidados que surgiam de surpresa.

Um ano depois de mudarmos chegou a caçula e a família ficou completa, ainda lembro de todos irmos para a varanda do quarto de meus pais para esperá-los voltarem da maternidade.

Nossa casa sempre foi o clube da rua, toda molecada se reunia às tardes para todo tipo de brincadeiras. O jardim era o estacionamento das bicicletas, em uma época em que as portas ficavam abertas e todos tinham passe livre.

Entre a sala e a cozinha havia um hall com uma escada de madeira torneada espetacular, nossa parte preferida era exatamente embaixo dessa escada, onde usávamos tecidos e caixas para criar um espaço novo, em alguns momentos era um castelo em outros uma caverna, ali embaixo tudo podia acontecer, era mágico.

A casa trazia desde elementos do casamento de meus pais, até modernidades que iam surgindo, como a TV a cores. Fomos os primeiros da rua a ter esse equipamento tão “moderno”. Só tinha um problema, a programação das emissoras não era colorida e a frustração foi histórica.

Entre as peças “herdadas” no casamento havia um conjunto de aparador e espelho que tinha sido de minha avó, essa peça ficava no hall da escada e todos sempre davam uma parada ali antes de encarar a rua. Era tão apaixonado por aquela peça, que hoje ela está em minha casa.

O mais bacana dessa casa é que ela era viva. Lá tudo era permitido. A sala virava cinema, sala de jogos, parque de diversões ….. A casa era de todos em plena harmonia, e foi vivendo nessa casa com minha família e meus amigos que aprendi a receber as pessoas na minha vida com bom humor e calor.

Independente de luxo e sofisticação, percebi que o mais importante em uma casa é o sorriso e o abraço, a reunião é que vale a pena, foi lá que aprendi a deixar as portas e janelas abertas, sem medo de viver e arriscar.

Marcelo Darghan é Artista Plástico e trabalha com artesanato há 24 anos. Colaborador de diversos veículos de comunicação em assuntos relacionados ao “Faça Você Mesmo”, tem experiência com publicidade, marketing, vitrinismo e programação visual.

 

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As muitas casas de Renato Modernell

 

Tive a sorte de ter duas casas na infância. Duas que foram muitas, como num jogo de espelhos. A primeira delas, onde a família passava a maior parte do ano, era na cidade. Rio Grande, no extremo sul do país, tinha naquela época seus 80 mil habitantes. As ruas ficavam vazias à noite. Quem morava perto se conhecia. Nosso mundo era aquele trecho da Rua Victorino, a uma quadra da Praça Tamandaré. Em uma casa amarela, com duas janelas na frente, vivi até os 8 anos de idade.

Essa casa ficava na embocadura de outra rua, muito calma e arborizada. Isso nos propiciava, das janelas da frente, uma visão de profundidade que se espraiava por vários quarteirões até o prédio cinzento de um hospital onde uma vez me operaram de adenoide. Bem perto de casa, na esquina em frente, havia um armazém que vendia balas de mel.

 

 

A casa era aconchegante, estreita e comprida, tendo no meio uma área cimentada para iluminar os cômodos centrais. Essa era a configuração típica das residências de classe média, naquela época. Sem garagem, mas com um quintal razoável, dotado de um grande canteiro de temperos, abacateiro, galinheiro, quarador, galpão e uma área de terra para fazer churrasco a lenha, fogo de chão, como se chama no sul. As churrasqueiras surgiriam muito depois. Do quintal, via-se a torre de uma igreja.

A sala tinha um toque lúgubre por conta de um quadro luminoso que mostrava um Jesus Cristo de rosto compungido e coração à mostra, crivado de espinhos. Em algum lugar, minha mãe escondia uma garrafa de licor de anis, só para as visitas. Acho que era impossível tomar aquilo sem uma sensação de culpa, dado o martírio de Cristo.

Vivia-se bem na nossa casa, sem luxo nem estorvos. O maior problema era o mesmo de todas as outras daquele tipo, numa cidade de origem portuguesa: ter um único banheiro. E bem ao fundo, perto da cozinha e distante dos quartos. Nas noites geladas de inverno, a salvação eram os urinóis esmaltados sob a cama, em cada um dos três dormitórios.

 

No verão, ficávamos ao menos três meses morando no hotel da nossa família, distante pouco mais de 20 km da cidade, em uma vila balneária chamada Cassino. Lá era o contrário da minha vida invernal: espaço ilimitado. Um labirinto à minha disposição.

Quando o hotel estava vazio, no início e no fim da temporada, eu podia me trancar um dia em cada quarto para ler gibis, desenhar, colar figurinhas ou não fazer nada, apenas observar o mundo (inclusive as trilhas das formigas) de diferentes perspectivas. Ninguém podia saber ao certo onde eu estava. Isso me tornava, de certa forma, invisível.

Havia inúmeros esconderijos alé do porão ao milharal. O Hotel Familiar era um mundo que se dividia em dois: o prédio principal, que ocupava a metade de um quarteirão, e o prédio do anexo, ao centro de um quarteirão inteiro, do outro lado da avenida. Este último era um enorme chalé de linhas aristocráticas. Já estava meio deturpado e decadente quando meu pai o adquiriu. Mas tinha ainda verdadeiras relíquias, em móveis e objetos deixados para trás por um alemão, colaborador do Reich, que teve de fugir do Brasil na Segunda Guerra.

Esses prédios, o novo e o antigo, tornaram os verões da minha infância experiências inesgotáveis. Aprendi a ver a vida em chiaroscuro. Morar dentro de um hotel, observar o fluxo de pessoas, ter amigos sazonais e de cidades diferentes, gente que ia e vinha, cada ano de um jeito, comparar as biografias dos objetos, a madeira e o plástico, o que fica e o que passa, os hóspedes e suas manias, os empregados e suas histórias, tudo isso fez do Hotel Familiar, para mim, o que hoje se chamaria de parque temático.

Em março ou abril, terminado o verão, após aquela longa imersão na efervescência do hotel, uma síntese do mundo, eu podia então voltar para a cidade e encarar o olhar inquisidor do Cristo. Ele ficava na sala, à nossa espera. Nunca tirava férias. Morava lá mais que nós.

Renato Modernell é um escritor e jornalista gaúcho, vencedor do Prêmio Jabuti pelo romance Sonata da Última Cidade.

A casa que transformou Maytê Piragibe em atriz

Mostro para vocês, a minha terceira moradia desde que nasci: um apartamento em Salvador-BA onde morei de 1991 a 1998. O bairro era o Alto do Itaigara e o prédio se chamava Paradise Hill. Foi uma época muito feliz da minha vida! Eu estudava, dançava na Academia Rosana Abubakir e já começava a fazer muitos trabalhos de publicidade pela cidade. A sala era o local em que eu afastava os móveis e criava um espaço de dança. O apartamento tinha 3 quartos, era espaçoso. Além disso, a ampla área de lazer, que o prédio oferecia, possibilitava que as crianças soltassem todas as energias acumuladas. Piscina para brincar com os amigos, local para patinar, estudar e quadra de tênis e futebol. Tenho boas lembranças…

Morava com minha irmã Mayra, cinco anos mais velha que eu e com a minha mãe, Teresa Cristina. O meu pai, Fenelon, na época trabalhava em Valença (em uma fábrica de tecidos), mas voltava todo final de semana. Algumas vezes, era a gente que viajava para lá e curtia com ele a praia de Guaibim, Boipeba ou Morro de São Paulo.  Nas legendas, das fotos, vou apresentar um pouco mais desse espaço em que fui tão feliz.



Meu quarto! Eu dividia  o meu quarto com minha irmã Mayra, 5 anos mais velha. Na época minha mãe estava fazendo curso de Designer de Interiores e foi seu primeiro projeto, em 1993. Teve até entrevista para ela saber de nossas necessidades e divisão de espaços! Com os trabalho que eu fazia  de publicidade, poupava e depois investia em cursos. Cheguei até a comprar um vídeo game. Eu tinha também uma vitrolinha cor de rosa que colocava meus discos de vinil para dançar. Os discos estão guardados também na fazenda. Lindas lembranças de uma infância feliz. Na foto acima, eu e minha irmã  Mayra antes de uma apresentação.



Móveis de madeira e muito espaço para brincar com os meus brinquedos. É assim que me lembro da minha casa. Claro que apesar de estar crescendo eu adorava brincar com as Barbies. Achei que as tivesse dado para outras crianças, mas, para minha feliz surpresa, minha mãe guardou e as tenho até hoje escondidas num baú na minha Fazenda, na Serra da Bocaina. Elas serão resgatadas em breve para minha filhota Violeta que está com 1 ano e 8 meses.

 

Este cantinho era reservado para estudos e receber minhas amigas e tenho só lembranças boas!


Maytê Piragibe é atriz.

Uma rua como aquela*

 

“Não é tão bom assim… Tem muito problema com vizinho, sabe?”

Era assim que minha mãe respondia às (muitas) pessoas que diziam “Você mora em uma vila!? Que delícia!”. Eu me surpreendia com as duas coisas: para uma criança, morar em uma rua sem saída era um sonho, só não imaginava que fosse para tantos adultos também. Quanto aos problemas com vizinhos…

Bom, tinha o seu De Paula, tenente do Exército aposentado que andava de bengala e ficava muito, mas muito bravo quando caía bola no quintal dele.

Estacionamento era um problema – havia mais carros do que vagas e uma discussão interminável sobre quem tinha direito de estacionar no “balão” no fim da rua (o equivalente a uma clareira, se ali fosse uma floresta, rs). Volta e meia um vizinho “trancava” o outro e o trancado tocava a campainha às cinco da manhã (“você pode tirar seu carro?”). Uns mais, ahn… (“folgados” é a única palavra, não adianta) jogavam a chave da janela – “tira aí”.

Dona Graci entrava na vila – estreita, claro, e cheia de crianças brincando – a toda “vula”, como se dizia na época, buzinando e contando que saísse todo mundo da frente. O apelido dado a ela pelos moleques da rua era “BipBip” (o Papaléguas).

O Paulinho também entrava correndo. Já o vizinho do Fusca azul celeste defendia que o balão (não lembro o nome dele) não era para estacionar, era para manobrar. Então fazia questão de entrar de frente e fazer mil e dois vaivéns com seu carro até deixá-lo de frente para a saída. Já a Gladys, com carta de motorista recente, ficava horas treinando entrar e sair de ré com o Corcel II branco do pai dela, o seu Fausto. Não era mesmo fácil dirigir ali.

Minha mãe ficava fula da vida com os vizinhos que levavam o cachorro para usar nossa calçada (gramada) como banheiro. E também com quem varria a própria sarjeta e, em vez de recolher o lixo – folhas, basicamente – o empurrava para a casa ao lado. Como a nossa era a penúltima casa – justo no balão! – também sobrava pra gente ali. E o pior, a boca de lobo no fim da rua vivia entupida e quando chovia, a água chegava na altura do joelho. As crianças achavam divertidíssimo.

Dona Deomina, avó de vários dos meus amigos que também moravam ali, organizava grupos para rezar o terço na casa dela às seis da tarde. Eu ia.

A Marilene, um pouco mais nova do que eu e vizinha de parede, estudava piano. A gente escutava tudinho – toda escala, todo exercício. O que significa que ela escutava a minha aula também… Nosso cachorro, o Achilles, coitado, latia muito quando sozinho e incomodava todo mundo. E a Dona Iolanda, vizinha do outro lado, não se conformava com as trepadeiras enormes que cobriam a parede lateral e, segundo ela, enchiam sua casa de formiga e lagartixa.

Envolvendo a vila havia uma chácara da TFP. O lado bom: era um bosque, lindo e refrescante. O lado ruim: eles marchavam e entoavam seus cânticos e palavras de ordem a noite toda (!); também tinham cachorros bravíssimos que corriam atrás dos moleques que se arriscavam a roubar ameixa ou uvaia das árvores mais próximas. Não que eles fizessem a menor questão das frutas; elas caíam no chão e aprodreciam. Era a invasão que eles não toleravam.

Tanta história, tanta…

 

 

Parece que eu só falei de problemas – ops, é verdade – mas, como sempre acontece, o que era uma baita dor de cabeça lá atrás vira lembrança divertida décadas depois. E havia muito mais coisas legais na casa e na vila onde eu cresci. Éramos muitas crianças e a vila era nosso quintal compartilhado. Às vezes meninos e meninas brincavam separados, às vezes todos juntos. De “saquinho” (ou Cinco Marias), pular elástico, pular corda, Aumenta-aumenta, Pega-pega, Esconde-esconde, Duro-ou-mole, Passa-passa-três-vezes, Amarelinha, Caracol, Casinha, Escolinha, Mês, Passa-Anel, restaurante, Estátua, Mãe-da-Rua, teatrinho, bicicleta, jornal.

Também jogávamos bola, muito. Taco, Paredão (chute a gol – na parede do prédio da esquina), volei (com uma corda amarrada a um portão de um lado, uma grade de janela do outro). Mas os esportes “nacionais” da vila eram Stop (ou Alerta) e, principalmente, QUEIMADA. Eram jogos épicos… Especialmente quando eram meninos contra meninas. Eles eram mais fortes; nós éramos muito ágeis. Eu era forte também rs. Fui muitas vezes a principal jogadora do time – a última a ser queimada ou a vencedora. Inclusive quando do outro lado só tinha sobrado o Reneé (acho que era assim) ou o Humberto, os mais fortes entre eles. Quem perdia pagava picolé de maçã para os outros. Ou se sujeitava a um banho de esguicho – como se não quiséssemos todos tomar banho de água fria… Maior farra.

 

O Reneé foi minha primeira paixão avassaladora. Coração disparava, sangue nas bochechas dedurava o sobressalto. Eu ficava muito vermelha. Nossa, como eu queria impressioná-lo. Foi meu primeiro beijo – na Vila… – no dia do meu aniversário (de 13 anos, eu acho).

A Cuca era minha amiga inseparável. A Denise, um pouco mais velha que nós duas, também era bem chegada – mas ela era mais próxima da Andrea, a primogênita da família argentina da casa 19. A mãe delas, Dona Suzana, gritava o nome das três na hora do banho: AndreaDianaLaura! Aliás, era um sarro imitar o jeito de cada mãe chamar o seus.

Eu era feliz, muito feliz na minha casa. Sala, cozinha, 2 quartos, um banheiro, um mínimo quintal (pra mim era enorme), lavanderia, quarto de empregada. De lá eu saía correndo para pegar o ônibus para o Colégio quando estudava à tarde e saía bem cedo quando já estudava de manhã. Lá comemorei vários aniversários. Para lá voltei da maternidade quando tive minha primeira filha (ainda não tinha me casado com o pai dela). Estudei piano, tive cães, um coelho, porquinhos-da-índia. Namorei… Ouvi muito Beatles e Queen, Police e Carpenters – na vitrola, no rádio AM/FM ou no toca-fitas. Ou os discos do Ray Coniff do meu pai. Chorei muito na hora de dormir, pensando “minha mãe vai morrer um dia”. FIz lição-de-casa. Briguei (muito) com a minha mãe. Brinquei e briguei com meu irmão, mais do que com a irmã caçula. Passei muitas tardes com a minha avó, na segunda à noite comíamos a pizza que meu avô trazia enquanto eu assistia Satiricon ou outro programa do Jô.

Naquele sobradino cor-de-rosa, eu era bem feliz. E eu sabia.

*Livro da Lucilia Junqueira de Almeida Prado em que a ficção era quase tão legal quanto nossa vida ali


Soninha Francine já foi vereadora em São Paulo, hoje faz parte do partido PPS, escreve na revista Vida Simples e edita um blog na Folha Online.

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Roberto Negrete e as saudades de tudo

Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua…

Uma tarde, quando garoto, a minha tia querida levou a filha e os dois sobrinhos, meu irmão e eu, para tomar um sorvete e estreiar o carro novo que tinha acabado de comprar da marca e da cor que eu pedi.
O carro era um topolino azul marinho, com estofados em cru. Meu irmão e a minha prima Vivi no banco traseiro, eu, na frente. Nada de cinto, nada de air-bag. Estes dois atrás de mim eram muito levados. E o meu irmão adorava bater no respaldo do meu banco. Eu, muito bravo, me escondi entre o banco e o painel. No chão do topolino…!
Então, não é que o mundo fosse grande. Eu era pequeno!

Eu não tive uma casa na minha infância. Tive três! E tem uma especial, claro. A casa da minha avó que aos meus olhos era enorme!
O meu avô, o meu pai e eu fomos criados nela. Uma casa vinda da Inglaterra, tijolo por tijolo, trazida de navio pelos meus bisavôs no início do século passado. Era linda e tinha um jardim imenso porque a casa vizinha, da minha tia, tinha o jardim anexado. Um parque. Ou pelo menos, um parque para mim, a cachorra e os gatos da minha avó.

 

A semana toda a passava com os meus pais, na minha casa “oficial”. Com livros, aulas de violão, com o meu irmão ao piano, a professora de inglês, as aulas de natação… mas todo final de semana os brinquedos me aguardavam no mundo infinito da casa da mãe do meu pai. E os doces. E as delícias. E a minha tia, que morava ao lado e tinha comprado carro que eu pedi para comprar!
As ruas me pertenciam. San Isidro era meu. San Isidro e Florida (o bairro e não a rua). As minhas casas ficavam nestes pontos próximos da cidade de Buenos Aires, menos de 20 km. Era só pegar o trem. Ou esperar que os adultos nos levassem ao centro.

Todos sabem que o clima do planeta mudou. E a minha infância se passou jogando scrabble com a minha avó nas frias tardes de inverno, ou sentado ouvindo-a ao piano, ou brincando de esconde-esconde no escuro, por todas as salas da casa. A cozinha era o limite para um lado, a entrada principal para o outro.

Incrível ter tantas lembranças de tudo. Faz tanto tempo… Um dia a minha avó apareceu com um telefone branco, com o disco cromado… brilhante! Ou sempre, o meu avô tocando religiosamente gravações da Callas com o Tullio Serafin regendo. Ou o LP recem adquirido em Londres, da peça My fair lady, com a voz da Julie Andrews repetindo que chovia na planície espanhola… Ou o dia em que o gravador de fita Geloso fez a primeira gravação da brincadeira boba dos meninos tolos… Que saudades!

 

Pena que quando a adolescência chegou parti um pouco do casulo em busca de novas experiências. E embora a casa ficou com a família por muitos mais anos, eu fui buscando novos horizontes e passei de residente a visitante.
Hoje, a visito sempre que o meu inconsciente busca um cenário familiar para os meus sonhos.
E não vale pensar em saudade de uma coisa só. Tenho saudades de tudo. Do cheiro de torta de ricota, do barulho do padeiro e a sua carroça passando na rua, das balas de chocolate com laranja que a minha avó pensava que guardava em lugar seguro, dos contos antes de dormir, dos lençóis de cor azul celeste, da minha amexeira, que dava frutas escuras e doces, todo verão… Nunca haverá ameixa tão doce.

 



Só não lembro de ter sido muito arteiro, não como a minha avó contava do meu pai que, aos dez anos de idade, realizou uma façanha que o meu irmão repetiu, sem saber do precedente, perante os meus olhos espantados. Os dois pularam da sacada do quarto dela, no primeiro andar, usando um guardachuva de paraquedas. E os dois sobreviveram para nutrir com esta anedota as risadas da família.

Impossível eu não chegar neste ponto do texto com lágrimas caindo pelo meu rosto, que envolve agora o meu olhar distante. Obrigado por me ceder este espaço para despertar lembranças tão gratas.

O arquiteto Roberto Negrete nasceu na Argentina, mas mora no Brasil desde a década de 1980.

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A infância em uma escola de música

A casa em que passei muitos e maravilhosos dias da minha infância não foi exatamente a minha, mas a da minha avó Margarida, em Avaré-SP, cidade em que aliás eu nasci (mas nunca vivi). Minha família é gigantesca e tive o privilégio de crescer com muitos primos para brincar. Nas ferias, todos nós passávamos uma longa temporada na casa da vovó, que respirava música, já que ela foi cantora nos anos 50.

Bruna e Lucas em 1990, inventando personagens.

Vovó fez questão de que todos nós aprendessemos a cantar e a tocar ao menos piano. Durante um período da minha infância, o andar de cima da casa dela foi uma escola de música, com várias salas e um piano em cada uma delas. Eu e meus primos brincávamos ali, quando a escola fechava, de tocar, compor, dançar, fazer arte. Isso me marcou demais. Por ser uma casa antiga, tinha também muito a ser explorado para um bando de crianças: o quintal, o porão, a sala, a escada, a lavanderia, até no telhado a gente subia! Felizmente a casa sobrevive até hoje e minhas lembranças também.

Bruna Caram é cantora, formada em Educação Musical pela Unesp. Aos nove anos fez parte do Trovadores Urbanos e aos 19 lançou seu primeiro CD. Ela é dona de uma voz inconfundível e de uma presença de palco marcante.

 

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