Será que uma casa sabe o destino de seus moradores? Será que chora quando os meninos crescem? Será que a casa do moleque Raí se confundiu ao ver, dentro da TV, o jogador moço riscando o ar com a bola? Pois ele nem era famoso quando saiu, aos 17 anos. Raí foi embora quando se casou – mudar daquela casa significou virar gente grande. A infância simples ficava ali, no imóvel construído muitos anos antes pelo pai Raimundo e pela mãe Guiomar.

Foto: Revista Brasileiros – agosto 2010. Raí é o menor dos filhos de Dona Guiomar (que ficou escondida pelos filhos na foto).
Eram quatro quartos feitos para acomodar um tanto de criança – seis filhos de diferentes idades e mais um ou dois parentes que o pai ajudava. Algazarra garantida, pé no chão, cheiro de terra molhada no calor de Ribeirão Preto. O bairro era Sumaré e a vida tão comum e tão boa quanto a de qualquer pessoa que tem um quintal rodeando o terraço, com canto de sobra para abandonar brinquedo quebrado, para criar bicho, para encontrar insetos. No almoço ou no jantar a mesa sempre estava cheia – vantagem de se ter uma família grande. Eram longas as conversas e variados os assuntos. O pai amava os filósofos gregos e passava horas na biblioteca. Raí não era o mais assíduo frequentador no mundo dos livros e, hoje, até se arrepende do tanto que não leu e poderia ter lido. Mas a biblioteca mora ainda em suas lembranças com o sagrado volume das prateleiras e os olhos do pai a percorrer as linhas. Havia, ainda, o piano. E um piano é quase um altar em qualquer casa. Haja ou não alguém que o toque.

“Quando me lembro daquela casa, sinto a agradável sensação de aconchego, segurança e harmonia”, escreveu Raí. E ele nem se refere ao aconchego de macios sofás, segurança de fechaduras com leitura biométrica, harmonia de feng shui… Ele só confirma que as casas da infância são, sim, como mães para os meninos, cólo, ninho para os filhotes. E, se choram mesmo quando eles crescem e vão embora, também sentem orgulho. E casa a do menino Raí talvez olhe orgulhosa para as outras da rua e diga “Sim, é verdade, ele morou aqui”.
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